
Lembrei como é sentir medo. Não consigo deixar de associar os acontecimentos dos últimos dias com aqueles de 40 anos atrás, cujo resultado foi trágico para o mundo e especialmente para nós, latino-americanos.
O anúncio de ontem de que a Rússia está estacionando seu mais poderoso navio de guerra junto com uma flotilha de apoio no Mar do Caribe para "exercícios navais" com a Marinha venezuelana me fez pensar na crise dos mísseis de Cuba. Aquele confronto, que na Rússia é chamada de "crise do Caribe", celebra 46 anos no mês que vem.
O resultado, para quem não lembra, foi a escalada da Guerra Fria que culminou com a separação do mundo em duas esferas de influência - quer o povo dos países sob a tal esfera quisesse ou não. A gente, na América Latina, ficou em geral sob o comando de ditaduras instauradas pela esfera ocidental, capitalista.
É lógico que nossas ainda frágeis instituições parecem um pouco mais sólidas agora do que naquele tempo. Mas não se pode subestimar a maneira como a situação geopolítica mundial pode transformar rapidamente a política interna na América Latina, quintal dos EUA.
Permitam-me uma rápida anedota para ilustrar o quanto me assusta que aqueles dias retornem. Há algum tempo conheci uma moça numa festa aqui em Nova York e posteriormente saímos para jantar. Numa típica exibição de ignorância geopolítica norte-americana ela me disse:
"Você é sul-americano. Nossa, minha melhor amiga na faculdade era a neta do Pinochet."
Engasguei na comida.
"Sua melhor amiga? Você sabe quem foi Pinochet?"
Ela, inocentemente:
"Ele foi presidente do Chile, né?!"
Desatei a falar, subindo o tom de voz.
"Presidente do Chile? O avô da sua amiga foi um assassino que reuniu 5000 pessoas num estádio e as executou sumariamente."
Ela encolheu e disse timidamente:
"Ai, ela não tem nada a ver com o que ele fez. E quem pagava a escola dela (Cornell, caríssima!) era o pai dela que era metido com finanças."
Respondi:
"Com dinheiro que ele roubou do povo chileno. Olha você me perdoa porque você não entende. Seu país nunca viveu uma ditadura. Você não sabe o que é ter medo de reunir mais de três amigos para bater papo porque a polícia pode levar vocês por suspeita de estarem organizando alguma atividade política. Aliás, não só seu país nunca teve isso, foi seu país que patrocinou a ditadura no meu país e no Chile!"
Foi nosso primeiro e último encontro.
E o tenebroso episódio do Estádio Chile faz 35 anos em 2008. Assim como a Primavera de Praga está fazendo 40 anos ao mesmo tempo em que uma Rússia sob o comando do ex-KGB Vladimir Putin invade a Geórgia numa macabra memória dos dias em que os tanques russos tomaram a República Tcheca.
Causa medo também que o ex-embaixador da Inglaterra nos EUA Sir Christopher Meyer tenha sugerido num artigo no Times de Londres na semana passada que o mundo voltasse ao Congresso de Viena que dividiu a Europa em esferas de influência. Naquela ocasião, a Rússia ficou com a Finlândia que havia anexado da Suécia e com a Polônia. Eu nem quero imaginar o que aconteceria se uma nova versão da decisão do Congresso fosse instituída.
Não posso deixar de notar também que um dos maiores admiradores do Congresso de Viena foi Henry Kissinger, cuja tese de doutorado foi sobre o assunto.
Eu só espero que nossas nascentes democracias sobrevivam às mudanças recentes.
É lógico, estes são tempos de internet, diferentes. E, enquanto em 1968 os negros iam à luta aqui nos EUA por seus direitos civis, hoje há uma forte possibilidade de vermos um presidente negro. Também, ao contrário do que aconteceu em 1968 com a República Tcheca, dessa vez os tanques russos não foram até Tblisi, a capital da Geórgia.
Mas não consigo deixar de ver emergir a sombra de um monstro que cheguei a crer enterrado.
Foto: Reuters - 2003

1 comment:
FORMIDÁVEL!!!!! ADOREI!!!!!!
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