Saturday, July 19, 2008

Os gigantes tupiniquins

Está passando despercebido o esforço do governo brasileiro de criar gigantes nacionais. Esta semana, a oferta de ações da Cia. Vale do Rio Doce foi basicamente salva pelos fundos de pensão nacionais. Entre Valepar, outros acionistas minoritários e os fundos de pensão, ficaram dois terços da oferta, ou aproximadamente US$8.5 bilhões. Se me lembro bem, a oferta de ações da Anhangüera Educacional, que investe num setor crucial para nós, foi dividida da maneira oposta, com estrangeiros comprando a maior parte do papel.
Está claro que a ordem aqui é, dêem dinheiro para a Vale que ela precisa comprar outra grande empresa e tornar-se a maior mineradora do mundo. No ano passado, o governo fez isso quando o BNDES comprou quase US$1 bilhão em ações da Friboi para impedir que a companhia quebrasse as regras de alavancagem de seus bonds globais depois de ter comprado a Swift para tornar-se a maior indústria frigorífica do mundo.
Até entendo que investir nas ações da Vale se ela for comprar a Anglo-American ou a XStrata é um bom negócio. Mas se os administradores de fundos de investimento em mercados emergentes aqui acharam por bem não comprar tanta ação da Vale, por que raios a Previ e o Petros, e sabe Deus que outros fundos, resolveram que esse era o negócio do século?
Vá lá, desde que eles começaram a investir na Vale, esses fundos tiveram um ótimo rendimento.
Mas não consigo deixar de pensar que tem a mão do governo aí. O BNDES participa da Valepar, que sozinha comprou mais de US$3 bilhões na oferta. Aí tem o Previ. Bom, o Sérgio Rosa, presidente da Previ, foi peça importante no Sindicato dos Bancários de São Paulo na década de 90. Desse mesmo sindicato, filiado à CUT, é que saíram Luis Gushiken e Ricardo Berzoini.
Vai me dizer que o governo não deu um empurrãozinho?
O legal dessa história é que o governo brasileiro está fazendo tudo na maciota, de forma que nem o contribuinte - que está pagando pelos planos megalomaníacos do Lula - e nem os estrangeiros estão reclamando.
Me lembro quando o governo francês começou a falar em criar campeões nacionais o bafafá que deu por aqui. Mas o pessoal menospreza os tupiniquins.
E enquanto isso a gente vai sorrindo pra eles, vai mexendo as cadeiras, tocando bossa-nova e comprando tudo.
Já temos o maior frigorífico, a maior cervejaria e a maior mineradora de ferro - que está prestes a tornar-se simplesmente a maior mineradora do mundo.
E o Luciano Coutinho pergunta ao Lula: "Que vamos fazer amanhã, Lula?"
Lula responde: "O que fazemos todos os dias, Luciano. Tentar conquistar o mundo."

Thursday, July 17, 2008

Quase 1929

Pouca gente percebeu o quanto estivemos perto do colapso dos mercados na sexta-feira passada, 11 de julho. Num único dia, as ações das duas agências de financiamento imobiliário do governo americano (que hoje são instituições privadas), caíram 50% e voltaram ao nível anterior.
O governo agiu rápido, prometendo emprestar dinheiro a Fannie Mae e Freddie Mac, as tais agências. Mas, poucas horas depois de o mercado fechar, o segundo maior banco privado de empréstimo imobiliário para pessoas com histórico de crédito um pouco suspeito, o Indy Mac, ficou sob intervenção federal.
Por volta do meio-dia eu liguei para um trader para saber como estava o mercado de renda-fixa. A resposta dele: "Você já viu alguém pulando da janela por aí? Eu só estou esperando começar a chover gente." Ele não estava brincando.
A essa altura, a indústria dos rumores em Wall Street estava a todo vapor e ouvi de tudo no decorrer do dia. Os mais otimistas me diziam que o HSBC estava prestes a comprar o Lehman Brothers por um valor simbólico de US$5, e os profetas do apocalipse diziam que o Tesouro dos EUA estava para ter sua classificação de crédito rebaixada. Se isso acontecesse, a quinta-feira negra de 1929 seria lembrada como um dia feliz.
Durante o fim de semana, todos sabiam que o governo estava se mexendo para acalmar não só os mercados, mas também as pessoas. Ainda assim, achei que ia acordar na segunda-feira e ver enormes filas de correntistas tentando retirar seu dinheiro dos bancos, como na Argentina em 2002.
Não aconteceu. Tudo estava normal na segunda, excluindo, logicamente, as filas na frente do Indy Mac.
No fim, parece que realmente o secretário do Tesouro Henry Paulson e o presidente do Fed Ben Bernanke conseguiram evitar que o sistema financeiro americano fosse pro brejo.
Mas será que eles conseguiram mesmo?

Wednesday, July 9, 2008

Justiça demais a gente desconfia

Caramba, fiquei orgulhoso. Nossa Polícia Federal, num esforço digno da Interpol, botou na cadeia 22 pessoas ligadas a um esquema de corrupção, lavagem de dinheiro e tráfico de informação privilegiada. Entre os nomes, os algozes Celso Pitta, Daniel Dantas e Naji Nahas. Faz tempo que quero ver essa manchete.

Estava dando vivas à integridade do governo Lula (finalmente!), quando percebi um detalhe: toda a investigação começou por causa do esquema do mensalão. Ou seja, a julgar pela história que está nos jornais, Dantas, Pitta e Nahas foram os mentores do esquema do mensalão.

Pera lá! Eu sabia que estava bom demais para ser verdade. Então esse maravilhoso esforço que finalmente colocou essa turma na cadeia ao mesmo tempo inocentou a turma do Lula?

Não sei não...

Só fico admirado que nenhum jornal ainda tenha tentado relacionar os 22 acusados com o governo Lula. Afinal, se eles estavam envolvidos no Valerioduto, cujo principal objetivo era garantir que um bando de deputados desavergonhados votassem com o governo, então alguma relação o trio do terror deve ter com o Palácio do Planalto.

Ou talvez seja eu. Acho que estou ficando cínico.

Sunday, July 6, 2008

O problema dos EUA é o milho

O petróleo bateu outro recorde na quinta-feira, véspera de feriado por aqui. A nova marca chegou bem a tempo de coincidir com mais um relatório do Departamento de Trabalho americano mostrando que em junho a economia reduziu em 62.000 o número de postos de trabalho, mesma queda do mês anterior.
Para aqueles que ainda não haviam percebido, os EUA estão em stagflação. Ou seja, os preços continuam a subir, mas a economia está parada. Me lembra cada vez mais a crise causada pelo choque do petróleo no fim da década de 70 e começo da década de 80.
Naquela época, a situação se resolveu com a descoberta de novos poços de petróleo no Mar do Norte e com uma brusca redução no consumo - lembra do Proálcool? Dessa vez, o padrão está se repetindo sendo que o Brasil é onde as descobertas de novas jazidas foram feitas. E nos EUA, cada vez se vê mais carros híbridos - que usam tanto bateria como gasolina - nas ruas.
Mas haveria uma solução muito mais simples, rápida e barata. Basta os EUA pararem de proteger a indústria de etanol à base de milho deles. E, nesse ponto, é preciso dar-se o devido crédito: o John McCain é o único dos candidatos (estou incluindo os que já estão fora da corrida) que tem falado em cortar subsídios aos produtores de milho. Aliás, se fosse pensar só do ponto de vista dos brasileiros, ele é o melhor candidato porque apóia o livre comércio e políticas de imigração, ao contrário do Barack Obama. Mas isso é outra história para outro post.
Voltando ao milho. Vamos aos fatos. O Congresso dos EUA acaba de passar um projeto garantindo US$289 bilhões para subsidiar agricultores nos próximos cinco anos. É suficiente para patrocinar três anos e meio de pacotes de estímulo como o que foi realizado este ano, quando cada contribuinte recebeu US$600 simplesmente para ajudar a impulsionar a economia.
O que é pior, a agricultura nos EUA nem sequer usa muita mão de obra. Ou seja, os subsídios não estão gerando muitos empregos.
Por outro lado, por causa da insistência em utilizar etanol de milho americano, o preço do milho está subindo.
E como nesse país tudo é à base de milho, os preços dos alimentos estão subindo também. Todo tipode comida industrializada - basicamente qualquer coisa disponível numa prateleira de supermercado - é adoçada com xarope de milho. O milho é também o principal insumo na criação de suínos, bovinos e aves aqui. Enfim, toda a cadeia alimentar americana tem por base o grão dourado. E eles querem fazer etanol com ele.
Não bastasse a inflação alimentar causada pelo etanol de milho, a demora inerente para implementá-lo como combustível está atrasando a redução da demanda por petróleo, que poderia controlar a escalada da commodity. O resultado é que tudo o que é feito de petróleo - além da gasolina, há plásticos e químicos que são insumos para várias indústrias, da agricultura à automotiva - está ficando mais caro, pressionando o índice de preços.
O aumento da inflação amarra as mãos do Fed, que baixaria a taxa de juros para ajudar a economia, não fosse a disparada de preços. Outra redução da taxa de juros é exatamente o que precisa a indústria da construção, uma das maiores geradoras de empregos daqui.
Aí tem o aspecto puramente técnico, e ambiental, do etanol de milho. Para transformar o açúcar fermentado em etanol a usina precisa de muita energia. No caso da cana-de-açúcar, essa energia é gerada queimando-se o bagaço. Mas o milho não tem bagaço. Então, os produtores de etanol daqui andam tentando de tudo, de carvão a queimar estrume coletado de fazendas de gado. A maior parte deles acaba optando pelo diesel mesmo. Irônico, não?
Por fim, além do Brasil, que é o maior exportador de açúcar de cana do mundo, se os EUA abrissem as portas para o etanol da gramínea, alguns países subdesenvolvidos seriam beneficiados - a Guatemala e os países da aliança de desenvolvimento sul-africano, para citar dois.
E para fazer isso é muito simples. Tudo o que o governo precisa fazer é parar de proteger os produtores de milho e garantir que todo posto de gasolina aqui tenha uma bomba de etanol.