Friday, September 26, 2008

É o fim do mundo


Há algum tempo não escrevo aqui simplesmente porque estive tão pasmo com a seqüência de eventos recentes que não consegui parar para opinar sobre eles. Mas o que aconteceu ontem de noite me convenceu de que era hora de voltar ao meu humilde fórum.
Refiro-me à quebra do Washington Mutual. Em dez dias correntistas retiraram quase US$ 17 bilhões dos cofres do banco, forçando o governo a tomar o controle e vender os depósitos remanescentes ao JPMorgan por US$ 1.9 bilhão - trocado para a instituição que desde o século 19 salva o governo americano. Foi o maior banco comercial a quebrar na história do país.
Há algum tempo venho dizendo que estamos vendo outra crise do porte da que começou em 1929. Sempre que digo isso, uma amiga faz uma distinção otimista: "Naquela ocasião as pessoas correram aos bancos para retirar seus depósitos."
Pois os eventos de ontem acabam de eliminar essa diferença. Logicamente, em tempos de internet, a gente não viu filas às portas do Washington Mutual. As pessoas retiraram seus depósitos usando seus laptops, no conforto do lar.
Mas o resultado é o mesmo. E como o WaMu, outros virão.
Aliás, isso me lembra um caso que aconteceu esta semana e que me deu uma idéia da proporção que a crise atingiu.
Uma amiga me disse que seu professor de psicologia organizacional (alguém que não é economista, portanto), disse em sala de aula que o banco mais seguro para guardar seu dinheiro agora é o Chase, parte do JPMorgan.
O caso me deixou preocupado. Sempre se diz no mercado financeiro que quando seu motorista começa a discutir um investimento é sinal de que você já deveria ter saído dele pois aquilo virou uma bolha. Isso também vale no sentido inverso, ou seja, quando as pessoas comuns começam a querer agir para se proteger da crise é sinal de que a coisa perdeu o controle.
Sem contar que quem não está no mercado financeiro muitas vezes interpreta mal as notícias. Dou um exemplo. Outra amiga esta semana me perguntou se era verdade que o JPMorgan estava para ser vendido, já que ela tinha conta no Chase. Ela pensava no Morgan Stanley, instituição sem relação alguma ao secular banco comercial e que apenas por coincidência tem um dos nomes igual ao super-saudável JPMorgan.
O resultado é essa corrida aos bancos. E qualquer um que estudou um pouco de teoria econômica sabe o que isso significa. Posso resumir em duas palavras: deu merda. Me perdoem o vernáculo, mas tempos de crise exigem expressões fortes.
Aí, meus amigos me perguntam: então, em que pé estamos afinal? Os fatos falam por si.
A um mês da eleição presidencial o congresso americano tem de votar um pacote de emergência que é talvez a única luz no fim do túnel. Digam o que quiserem, acho que vai ser difícil alguma coisa acontecer antes de 4 de novembro. Não existe força mais poderosa e destrutiva que burocratas tentando tirar o seu da reta.
E enquanto isso, parafraseando Chico Science, o mundo explode.
Meu consolo é que o Ben Bernanke, presidente do Fed, fez a tese de pós-doutorado dele sobre a crise de 1929. Portanto, hoje, ele é a pessoa mais capaz de lidar com a situação no mundo todo - e tem o poder para fazê-lo. Contudo, não depende só dele.
Sei que estou me alongando aqui, mas quero só fazer uma última observação. É curioso ver como o governo republicano de George W. Bush adotou uma postura quase socialista para lidar com a crise. Eles nacionalizaram algumas das maiores instituições financeiras deste país e estão buscando poderes extraordinários para o Executivo.
Mas isso não deveria ser uma surpresa, já que o Robert Kurz vem prevendo uma mudança de paradigmas no capitalismo há muito tempo. Cito aqui, numa tradução livre de uma tradução para o inglês, um trecho de um artigo antigo dele, Imperialismo da Crise:
"Toda vez que uma fase de valorização (no capitalismo) se exaure, as instituições políticas, conceitos aferentes, e ideologias se tornam obsoletas."
Por fim, vou compartilhar com vocês uma série de citações que um esperto economista chileno recolheu sobre a crise de 1929 que me ajudaram a reavaliar a crise atual. estou com preguiça de traduzi-las, mas sei que vocês entenderão.

"We will not have any more crashes in our time."
John M. Keynes, October 1927.

"No Congress of the United States ever assembled, on surveying the state of the Union, has met with a more pleasing prospect than that which appears at the present time. In the domestic field there is tranquility and contentment...and the highest record of years of prosperity. In the foreign field there is peace, the goodwill which comes from mutual understanding."
President of the United States, Calvin Coolidge, on December 4, 1928, in his last message to the nation before handing over command to his successor Herbert Hoover, 10 months before the crash in the New York Stock Exchange and the Great Depression of 1929-33.

"I see nothing in the present situation that is either menacing or warrants pessimism... I have every confidence that there will be a revival of activity in the spring, and that during this coming year the country will make steady progress."
Andrew W. Mellon, United States Secretary of the Treasury, December 31, 1929, when the Great Depression had just begun, which would end only in World War II.

"Gentleman, you have come sixty days too late. The depression is over."
Herbert Hoover, President of the United States in June of 1930, in response to the petitions for the creation of a public employment program to stimulate a reactivation of the economy.

Tuesday, September 9, 2008

Tenebrosos ecos do passado


Lembrei como é sentir medo. Não consigo deixar de associar os acontecimentos dos últimos dias com aqueles de 40 anos atrás, cujo resultado foi trágico para o mundo e especialmente para nós, latino-americanos.
O anúncio de ontem de que a Rússia está estacionando seu mais poderoso navio de guerra junto com uma flotilha de apoio no Mar do Caribe para "exercícios navais" com a Marinha venezuelana me fez pensar na crise dos mísseis de Cuba. Aquele confronto, que na Rússia é chamada de "crise do Caribe", celebra 46 anos no mês que vem.
O resultado, para quem não lembra, foi a escalada da Guerra Fria que culminou com a separação do mundo em duas esferas de influência - quer o povo dos países sob a tal esfera quisesse ou não. A gente, na América Latina, ficou em geral sob o comando de ditaduras instauradas pela esfera ocidental, capitalista.
É lógico que nossas ainda frágeis instituições parecem um pouco mais sólidas agora do que naquele tempo. Mas não se pode subestimar a maneira como a situação geopolítica mundial pode transformar rapidamente a política interna na América Latina, quintal dos EUA.
Permitam-me uma rápida anedota para ilustrar o quanto me assusta que aqueles dias retornem. Há algum tempo conheci uma moça numa festa aqui em Nova York e posteriormente saímos para jantar. Numa típica exibição de ignorância geopolítica norte-americana ela me disse:
"Você é sul-americano. Nossa, minha melhor amiga na faculdade era a neta do Pinochet."
Engasguei na comida.
"Sua melhor amiga? Você sabe quem foi Pinochet?"
Ela, inocentemente:
"Ele foi presidente do Chile, né?!"
Desatei a falar, subindo o tom de voz.
"Presidente do Chile? O avô da sua amiga foi um assassino que reuniu 5000 pessoas num estádio e as executou sumariamente."
Ela encolheu e disse timidamente:
"Ai, ela não tem nada a ver com o que ele fez. E quem pagava a escola dela (Cornell, caríssima!) era o pai dela que era metido com finanças."
Respondi:
"Com dinheiro que ele roubou do povo chileno. Olha você me perdoa porque você não entende. Seu país nunca viveu uma ditadura. Você não sabe o que é ter medo de reunir mais de três amigos para bater papo porque a polícia pode levar vocês por suspeita de estarem organizando alguma atividade política. Aliás, não só seu país nunca teve isso, foi seu país que patrocinou a ditadura no meu país e no Chile!"
Foi nosso primeiro e último encontro.
E o tenebroso episódio do Estádio Chile faz 35 anos em 2008. Assim como a Primavera de Praga está fazendo 40 anos ao mesmo tempo em que uma Rússia sob o comando do ex-KGB Vladimir Putin invade a Geórgia numa macabra memória dos dias em que os tanques russos tomaram a República Tcheca.
Causa medo também que o ex-embaixador da Inglaterra nos EUA Sir Christopher Meyer tenha sugerido num artigo no Times de Londres na semana passada que o mundo voltasse ao Congresso de Viena que dividiu a Europa em esferas de influência. Naquela ocasião, a Rússia ficou com a Finlândia que havia anexado da Suécia e com a Polônia. Eu nem quero imaginar o que aconteceria se uma nova versão da decisão do Congresso fosse instituída.
Não posso deixar de notar também que um dos maiores admiradores do Congresso de Viena foi Henry Kissinger, cuja tese de doutorado foi sobre o assunto.
Eu só espero que nossas nascentes democracias sobrevivam às mudanças recentes.
É lógico, estes são tempos de internet, diferentes. E, enquanto em 1968 os negros iam à luta aqui nos EUA por seus direitos civis, hoje há uma forte possibilidade de vermos um presidente negro. Também, ao contrário do que aconteceu em 1968 com a República Tcheca, dessa vez os tanques russos não foram até Tblisi, a capital da Geórgia.
Mas não consigo deixar de ver emergir a sombra de um monstro que cheguei a crer enterrado.
Foto: Reuters - 2003