
Há algum tempo não escrevo aqui simplesmente porque estive tão pasmo com a seqüência de eventos recentes que não consegui parar para opinar sobre eles. Mas o que aconteceu ontem de noite me convenceu de que era hora de voltar ao meu humilde fórum.
Refiro-me à quebra do Washington Mutual. Em dez dias correntistas retiraram quase US$ 17 bilhões dos cofres do banco, forçando o governo a tomar o controle e vender os depósitos remanescentes ao JPMorgan por US$ 1.9 bilhão - trocado para a instituição que desde o século 19 salva o governo americano. Foi o maior banco comercial a quebrar na história do país.
Há algum tempo venho dizendo que estamos vendo outra crise do porte da que começou em 1929. Sempre que digo isso, uma amiga faz uma distinção otimista: "Naquela ocasião as pessoas correram aos bancos para retirar seus depósitos."
Pois os eventos de ontem acabam de eliminar essa diferença. Logicamente, em tempos de internet, a gente não viu filas às portas do Washington Mutual. As pessoas retiraram seus depósitos usando seus laptops, no conforto do lar.
Mas o resultado é o mesmo. E como o WaMu, outros virão.
Aliás, isso me lembra um caso que aconteceu esta semana e que me deu uma idéia da proporção que a crise atingiu.
Uma amiga me disse que seu professor de psicologia organizacional (alguém que não é economista, portanto), disse em sala de aula que o banco mais seguro para guardar seu dinheiro agora é o Chase, parte do JPMorgan.
O caso me deixou preocupado. Sempre se diz no mercado financeiro que quando seu motorista começa a discutir um investimento é sinal de que você já deveria ter saído dele pois aquilo virou uma bolha. Isso também vale no sentido inverso, ou seja, quando as pessoas comuns começam a querer agir para se proteger da crise é sinal de que a coisa perdeu o controle.
Sem contar que quem não está no mercado financeiro muitas vezes interpreta mal as notícias. Dou um exemplo. Outra amiga esta semana me perguntou se era verdade que o JPMorgan estava para ser vendido, já que ela tinha conta no Chase. Ela pensava no Morgan Stanley, instituição sem relação alguma ao secular banco comercial e que apenas por coincidência tem um dos nomes igual ao super-saudável JPMorgan.
O resultado é essa corrida aos bancos. E qualquer um que estudou um pouco de teoria econômica sabe o que isso significa. Posso resumir em duas palavras: deu merda. Me perdoem o vernáculo, mas tempos de crise exigem expressões fortes.
Aí, meus amigos me perguntam: então, em que pé estamos afinal? Os fatos falam por si.
A um mês da eleição presidencial o congresso americano tem de votar um pacote de emergência que é talvez a única luz no fim do túnel. Digam o que quiserem, acho que vai ser difícil alguma coisa acontecer antes de 4 de novembro. Não existe força mais poderosa e destrutiva que burocratas tentando tirar o seu da reta.
E enquanto isso, parafraseando Chico Science, o mundo explode.
Meu consolo é que o Ben Bernanke, presidente do Fed, fez a tese de pós-doutorado dele sobre a crise de 1929. Portanto, hoje, ele é a pessoa mais capaz de lidar com a situação no mundo todo - e tem o poder para fazê-lo. Contudo, não depende só dele.
Sei que estou me alongando aqui, mas quero só fazer uma última observação. É curioso ver como o governo republicano de George W. Bush adotou uma postura quase socialista para lidar com a crise. Eles nacionalizaram algumas das maiores instituições financeiras deste país e estão buscando poderes extraordinários para o Executivo.
Mas isso não deveria ser uma surpresa, já que o Robert Kurz vem prevendo uma mudança de paradigmas no capitalismo há muito tempo. Cito aqui, numa tradução livre de uma tradução para o inglês, um trecho de um artigo antigo dele, Imperialismo da Crise:
"Toda vez que uma fase de valorização (no capitalismo) se exaure, as instituições políticas, conceitos aferentes, e ideologias se tornam obsoletas."
Por fim, vou compartilhar com vocês uma série de citações que um esperto economista chileno recolheu sobre a crise de 1929 que me ajudaram a reavaliar a crise atual. estou com preguiça de traduzi-las, mas sei que vocês entenderão.
"We will not have any more crashes in our time."
John M. Keynes, October 1927.
"No Congress of the United States ever assembled, on surveying the state of the Union, has met with a more pleasing prospect than that which appears at the present time. In the domestic field there is tranquility and contentment...and the highest record of years of prosperity. In the foreign field there is peace, the goodwill which comes from mutual understanding."
President of the United States, Calvin Coolidge, on December 4, 1928, in his last message to the nation before handing over command to his successor Herbert Hoover, 10 months before the crash in the New York Stock Exchange and the Great Depression of 1929-33.
"I see nothing in the present situation that is either menacing or warrants pessimism... I have every confidence that there will be a revival of activity in the spring, and that during this coming year the country will make steady progress."
Andrew W. Mellon, United States Secretary of the Treasury, December 31, 1929, when the Great Depression had just begun, which would end only in World War II.
"Gentleman, you have come sixty days too late. The depression is over."
Herbert Hoover, President of the United States in June of 1930, in response to the petitions for the creation of a public employment program to stimulate a reactivation of the economy.

