Sunday, July 6, 2008

O problema dos EUA é o milho

O petróleo bateu outro recorde na quinta-feira, véspera de feriado por aqui. A nova marca chegou bem a tempo de coincidir com mais um relatório do Departamento de Trabalho americano mostrando que em junho a economia reduziu em 62.000 o número de postos de trabalho, mesma queda do mês anterior.
Para aqueles que ainda não haviam percebido, os EUA estão em stagflação. Ou seja, os preços continuam a subir, mas a economia está parada. Me lembra cada vez mais a crise causada pelo choque do petróleo no fim da década de 70 e começo da década de 80.
Naquela época, a situação se resolveu com a descoberta de novos poços de petróleo no Mar do Norte e com uma brusca redução no consumo - lembra do Proálcool? Dessa vez, o padrão está se repetindo sendo que o Brasil é onde as descobertas de novas jazidas foram feitas. E nos EUA, cada vez se vê mais carros híbridos - que usam tanto bateria como gasolina - nas ruas.
Mas haveria uma solução muito mais simples, rápida e barata. Basta os EUA pararem de proteger a indústria de etanol à base de milho deles. E, nesse ponto, é preciso dar-se o devido crédito: o John McCain é o único dos candidatos (estou incluindo os que já estão fora da corrida) que tem falado em cortar subsídios aos produtores de milho. Aliás, se fosse pensar só do ponto de vista dos brasileiros, ele é o melhor candidato porque apóia o livre comércio e políticas de imigração, ao contrário do Barack Obama. Mas isso é outra história para outro post.
Voltando ao milho. Vamos aos fatos. O Congresso dos EUA acaba de passar um projeto garantindo US$289 bilhões para subsidiar agricultores nos próximos cinco anos. É suficiente para patrocinar três anos e meio de pacotes de estímulo como o que foi realizado este ano, quando cada contribuinte recebeu US$600 simplesmente para ajudar a impulsionar a economia.
O que é pior, a agricultura nos EUA nem sequer usa muita mão de obra. Ou seja, os subsídios não estão gerando muitos empregos.
Por outro lado, por causa da insistência em utilizar etanol de milho americano, o preço do milho está subindo.
E como nesse país tudo é à base de milho, os preços dos alimentos estão subindo também. Todo tipode comida industrializada - basicamente qualquer coisa disponível numa prateleira de supermercado - é adoçada com xarope de milho. O milho é também o principal insumo na criação de suínos, bovinos e aves aqui. Enfim, toda a cadeia alimentar americana tem por base o grão dourado. E eles querem fazer etanol com ele.
Não bastasse a inflação alimentar causada pelo etanol de milho, a demora inerente para implementá-lo como combustível está atrasando a redução da demanda por petróleo, que poderia controlar a escalada da commodity. O resultado é que tudo o que é feito de petróleo - além da gasolina, há plásticos e químicos que são insumos para várias indústrias, da agricultura à automotiva - está ficando mais caro, pressionando o índice de preços.
O aumento da inflação amarra as mãos do Fed, que baixaria a taxa de juros para ajudar a economia, não fosse a disparada de preços. Outra redução da taxa de juros é exatamente o que precisa a indústria da construção, uma das maiores geradoras de empregos daqui.
Aí tem o aspecto puramente técnico, e ambiental, do etanol de milho. Para transformar o açúcar fermentado em etanol a usina precisa de muita energia. No caso da cana-de-açúcar, essa energia é gerada queimando-se o bagaço. Mas o milho não tem bagaço. Então, os produtores de etanol daqui andam tentando de tudo, de carvão a queimar estrume coletado de fazendas de gado. A maior parte deles acaba optando pelo diesel mesmo. Irônico, não?
Por fim, além do Brasil, que é o maior exportador de açúcar de cana do mundo, se os EUA abrissem as portas para o etanol da gramínea, alguns países subdesenvolvidos seriam beneficiados - a Guatemala e os países da aliança de desenvolvimento sul-africano, para citar dois.
E para fazer isso é muito simples. Tudo o que o governo precisa fazer é parar de proteger os produtores de milho e garantir que todo posto de gasolina aqui tenha uma bomba de etanol.

1 comment:

Ludmilla said...

Chris!!!
Muito legal o seu blog!
Sabe que eu to lendo um livro q conta toda essa zik zira do milho americano?
Se chama O Dilema do Onivoro, muito bom!
Bjus